Apocalipse: A Vitória do Cordeiro e a Nova Criação

O Fim do Fim: Milênio, Derrota de Satanás e Julgamento Final

Por Redação

Chegamos ao capítulo mais debatido do Apocalipse. Nenhum outro capítulo do livro — e talvez de toda a Escritura — gerou tantos comentários quanto Apocalipse 20. Cristãos fiéis, que pregam o mesmo evangelho e confessam o mesmo Senhor, chegam a conclusões diferentes sobre o que João vê aqui.

O que nos cabe fazer não é resolver a controvérsia com um golpe decisivo. O que nos cabe é ler o texto com cuidado, pelo mesmo método que nos guiou até aqui: Apocalipse interpretado à luz do Antigo Testamento, gênero respeitado, Cristo no centro.

Apocalipse 20 não foi dado para alimentar curiosidade sobre um cronograma. Foi dado para mostrar que Satanás está limitado, que seu fim é certo, que todo ser humano comparecerá diante do trono, e que até a morte será destruída.

1. Uma nova visão: o inimigo por trás dos inimigos

“E vi um anjo descer do céu…” (Ap 20:1). Com essa frase, João recebe uma nova visão.

Vimos na seção 4: o Apocalipse não apresenta uma linha do tempo sequencial. Os selos, as trombetas e as taças não são etapas consecutivas, mas panoramas distintos do mesmo período — a era da igreja — cada qual culminando no julgamento final. Apocalipse 20 inicia uma nova visão que recapitula essa mesma era sob outra perspectiva, agora com foco no destino de Satanás.

O que acontece com o dragão durante toda essa era? Essa é a pergunta que o capítulo responde.

2. Satanás preso: o que significa o acorrentamento

Um anjo desce do céu com uma chave e uma grande corrente. Ele agarra o dragão — “a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás” — e o prende por mil anos no abismo, para que não engane mais as nações, até que os mil anos se completem.

O que está restrito é algo específico: sua capacidade de manter as nações sob o mesmo domínio de engano que caracterizava o período anterior à expansão mundial do evangelho. Pedro nos avisa que ele anda em derredor como leão que ruge (1 Pe 5:8), e o próprio Apocalipse mostra sua fúria contra a igreja. Satanás continua ativo — o que mudou é o alcance do seu engano.

Durante a antiga aliança, a revelação especial de Deus estava concentrada principalmente em Israel, enquanto as nações permaneciam, em grande medida, fora desse privilégio. Com a vinda de Cristo, o evangelho rompe essas fronteiras e é enviado a todos os povos. Ele disse: “Todas as autoridades no céu e na terra me foram dadas… Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28:18-19).

Paulo usa linguagem semelhante em Colossenses 2:15 — Cristo “desarmou os principados e potestades” na cruz. E Jesus mesmo disse, quando enviou os setenta: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10:18). O acorrentamento de Apocalipse 20 descreve essa realidade inaugurada na primeira vinda de Cristo.¹

3. Os mil anos e o reinado dos santos

Os mil anos representam, aqui, o período completo determinado por Deus entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Na linguagem simbólica do Apocalipse, o número comunica plenitude e extensão determinada por Deus — não um cronograma a ser calculado.

E quem reina com Cristo enquanto isso? João vê tronos e, sobre eles, os que foram mortos por seu testemunho.

Esses tronos não surgem do nada. João parece desenvolver a mesma esperança apresentada em Daniel 7. O Filho do Homem sobe até o Ancião de Dias e recebe domínio, glória e reino — um reino eterno que não passará (Dn 7:13-14). E em seguida: “O reino será dado ao povo dos santos do Altíssimo” (Dn 7:27). Os santos participam do reino que Cristo recebeu.²

Esse reino não começa com o retorno de Cristo, mas com sua ascensão. Cristo já reina do trono celestial, e os que lhe pertencem já participam desse reinado.

4. A primeira ressurreição: o que João está descrevendo?

João menciona explicitamente os mártires; nesta leitura, eles representam de modo mais amplo os santos que morreram em Cristo. Eles “vivem e reinam com Cristo pelos mil anos” (Ap 20:4). Isso é a “primeira ressurreição.”

O leitor pode perguntar: João não estaria falando de uma ressurreição física? Nesta leitura, o testemunho mais amplo do Novo Testamento aponta para uma ressurreição corporal de justos e ímpios associada ao julgamento final. É o que Jesus ensina: “vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal, para a condenação” (Jo 5:28-29).

A primeira ressurreição, então, não descreveria ainda essa ressurreição corporal final, mas a entrada dos santos na vida e no reinado celestial com Cristo após a morte. Outras tradições cristãs entendem essa expressão como uma ressurreição corporal anterior ao milênio.³

“Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes a segunda morte não tem poder” (Ap 20:6). A segunda morte — o lago de fogo — não os pode tocar. Eles já passaram da morte para a vida (Jo 5:24).

5. Satanás solto — e imediatamente derrotado

Os mil anos chegam ao fim. Satanás é solto por um breve período. Sai para enganar as nações dos quatro cantos da terra — Gogue e Magogue — e as reúne para a batalha. Seu número é como a areia do mar. Eles avançam pela extensão da terra e cercam o acampamento dos santos e a cidade amada.

É o ataque final. A grande ameaça que parece ser a última palavra.

Mas então: “desceu fogo do céu e os consumiu” (Ap 20:9). Sem batalha. Sem resistência. Sem suspense. O fogo desce e é acabado.

Gogue e Magogue funcionam, nesse sentido, como a totalidade dos inimigos reunidos contra o povo de Deus — não como nações geográficas a identificar nos noticiários.⁴

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta” (Ap 20:10). O dragão chega ao fim. A besta e o falso profeta já estavam lá desde o capítulo 19. A falsa trindade está reunida em seu destino final — e completamente derrotada.

6. O grande trono branco

Mas ainda resta algo. Mesmo com o dragão destruído, permanece um inimigo mais antigo, mais profundo, mais universal: a morte.

João vê um grande trono branco, e aquele que está sentado nele, diante de cuja face fugiram a terra e o céu. Diante desse trono, os mortos, grandes e pequenos, estão de pé. Todos. Sem exceção. Os livros são abertos.

E então outro livro é aberto: o livro da vida. Os mortos são julgados segundo as suas obras, conforme estava escrito nos livros.

O julgamento segundo as obras não contradiz a salvação pela graça. As obras revelam publicamente a realidade da vida e da lealdade de cada pessoa; o livro da vida identifica aqueles que pertencem ao Cordeiro.

“E o mar entregou os mortos que nele havia; a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia.” Ninguém escapa. Nenhum túmulo guarda seu morto para sempre.

7. A morte morre

E então vem a declaração mais impressionante do capítulo:

“E a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.” — Apocalipse 20:14 (NAA)

A morte morre.

Paulo já havia anunciado: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Co 15:26). Aqui vemos o cumprimento. A morte não é apenas derrotada — é destruída. Ela não subsiste em algum canto do novo universo. É eliminada.

A progressão do capítulo é exata:

Satanás é preso.
Satanás é derrotado.
A morte é destruída.

E a porta está aberta.

Fechamento

Apocalipse 20 não foi escrito para nos dar um cronograma de eventos futuros. Foi escrito para nos dar algo de maior valor: a certeza de que a história tem um destino moral.

Nada fica impune. Nenhuma injustiça é esquecida. Nenhum sofrimento é ignorado. Nenhum poder que se ergueu contra Deus e contra seu povo tem a última palavra.

E mais: os que morreram em Cristo — os que foram mortos por sua fé, os que sofreram pelo testemunho do Cordeiro — reinam. Já reinam. A primeira ressurreição é sua realidade presente.

A pergunta que o capítulo nos leva a fazer não é “Quando será o milênio?” É: “Em quem estamos confiando?”

Todo inimigo foi julgado. O dragão foi derrotado. A morte foi destruída. Agora o caminho está aberto para aquilo para o qual toda a história caminhava desde Gênesis: Deus habitando com seu povo em uma criação renovada.

Notas

  • 1 – Sobre o acorrentamento de Satanás como realidade inaugurada na primeira vinda de Cristo, ver William Hendriksen, More Than Conquerors (Grand Rapids: Baker, 1940), pp. 183–193; Kim Riddlebarger, A Case for Amillennialism (Grand Rapids: Baker, 2003), pp. 103–120; Dennis Johnson, Triumph of the Lamb (Phillipsburg: P&R, 2001), pp. 282–291.
  • 2 – Sobre a conexão entre os tronos de Ap 20 e a visão de Daniel 7, ver Johnson, Triumph of the Lamb, pp. 284–287; G.K. Beale & David Campbell, Revelation: A Shorter Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2015), pp. 410–415.
  • 3 – Sobre a “primeira ressurreição” e sua interpretação no contexto do ensinamento do Novo Testamento sobre a ressurreição corporal final, ver Hendriksen, More Than Conquerors, pp. 188–192; Riddlebarger, A Case for Amillennialism, pp. 121–140; Beale & Campbell, Revelation: A Shorter Commentary, pp. 418–424.
  • 4 – Sobre Gogue e Magogue como imagem da totalidade das forças hostis a Deus, ver Beale & Campbell, Revelation: A Shorter Commentary, pp. 428–432; Johnson, Triumph of the Lamb, pp. 294–297.

Bibliografia

  • Beale, G.K. e David Campbell. Revelation: A Shorter Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 2015.
  • Hendriksen, William. More Than Conquerors. Grand Rapids: Baker, 1940.
  • Johnson, Dennis E. Triumph of the Lamb: A Commentary on Revelation. Phillipsburg: P&R Publishing, 2001.
  • Riddlebarger, Kim. A Case for Amillennialism. Grand Rapids: Baker, 2003.
  • Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

Lições deste módulo

    Doutrina que forma discípulos.
    Não doutrina que agrada plateias.

    Cristianismo Integral Soli Deo Gloria