Apocalipse: A Vitória do Cordeiro e a Nova Criação

Vivendo sob o reino que já começou”

Por Redação

Há uma pergunta que muitos trazem ao Apocalipse quase sem perceber: quando Cristo vai reinar? A pergunta pressupõe que o reinado de Cristo ainda está por vir — que vivemos num mundo em que ele ainda não assumiu o trono. Nossa esperança, nessa leitura, é que um dia isso mude.

Desde o primeiro capítulo, João responde de forma direta. Cristo já é “o soberano dos reis da terra” (Ap 1:5). Não será. É. O trono não está vago. O Cordeiro já reina.

Esta sessão não é sobre cronologia do milênio. É sobre uma realidade que já existe — e sobre o que significa viver à luz dela.

A ascensão como entronização

Há um instinto que muitos trazem ao texto sem perceber: o de que Jesus ascendeu e, portanto, se retirou. Subiu aos céus e agora aguarda o momento de voltar e, finalmente, reinar. A ascensão, nessa leitura, seria uma ausência.

O Novo Testamento corrige isso diretamente. Jesus não ascendeu para esperar — ascendeu para reinar. A ascensão é sua entronização.

É isso que Pedro anuncia no Pentecostes, citando o Salmo 110: “Assentou-se à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (At 2:34–35). O trono não está vago. O Rei está sentado. Paulo desenvolve a mesma realidade em Efésios 1, ao afirmar que Deus ressuscitou Cristo e o colocou “à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia” (Ef 1:20–21).¹

O Cordeiro no trono — agora

A visão do capítulo 5 já havia preparado os leitores para isso. João viu o Cordeiro — aquele que parecia morto — recebendo o livro dos sete selos das mãos do Pai. E o céu inteiro explodiu em adoração:

“Digno és de receber o livro e abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os de toda tribo, língua, povo e nação, e os constituíste para o nosso Deus reino e sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra.”

Apocalipse 5:9–10 (NAA)

Isso já aconteceu. A exaltação de Cristo não é algo que esperamos — é o fundamento de tudo o que esperamos. Toda autoridade, no céu e na terra, foi dada a ele (Mt 28:18). Os reis da terra, por mais poderosos que pareçam, não agem fora da sua soberania. O Império Romano — que parecia ser o mundo inteiro aos destinatários do Apocalipse — também não estava fora do seu controle.

Paulo diz o mesmo com outras palavras em 1 Coríntios 15: “Cristo precisa reinar até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés” (v. 25). O verbo está no presente: precisa reinar. Ele já está reinando. O processo está em curso — o reinado de Cristo já em andamento é o próprio motor da história, submetendo inimigo por inimigo, até que o último deles, a morte, seja destruído.

O que João vê no Apocalipse — o Cordeiro recebendo o livro, os anciãos prostrando-se, o céu cantando — é a mesma realidade que o Novo Testamento inteiro testemunha: o Rei está no trono. Não estará. Está.

O Reino: já e ainda não

Isso levanta uma pergunta natural: se Cristo já reina, por que o mundo ainda parece tão distante da paz e da justiça que esperamos dele?

A resposta está numa tensão que percorre todo o Novo Testamento: o reino de Deus já começou, mas ainda não chegou à sua consumação. Cristo já está entronizado. Satanás já foi decisivamente derrotado na cruz. O evangelho já avança entre as nações. Mas a morte, o pecado e o sofrimento ainda não foram eliminados do mundo.

Não são duas realidades contraditórias — são dois estágios do mesmo reinado. O Reino inaugurado pela obra, ressurreição e exaltação de Cristo será consumado em sua volta. Vivemos, como diz o próprio título desta sessão, sob um reino que já começou — não sob um reino que ainda está por vir, nem sob um reino já plenamente realizado.

É essa tensão — já e ainda não — que nos dá a chave para entender o que Apocalipse 20 está dizendo.

Satanás acorrentado

Apocalipse 20 abre com uma imagem vívida. Um anjo desce do céu, prende o dragão — a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás — e o lança no abismo. Ele o sela “para que não mais enganasse as nações, até que se completassem os mil anos” (Ap 20:3).

Ao lermos isso, a reação natural é certa perplexidade: se Satanás está acorrentado, por que o mundo ainda parece tão caótico? Por que há tanta perseguição, engano e sofrimento?

O texto já responde à pergunta antes que a façamos. Satanás não está impossibilitado de agir — ele ainda anda “como leão que ruge, procurando a quem possa devorar” (1 Pe 5:8). O que o texto afirma é mais específico: ele está limitado para que não engane as nações como antes. Nesta leitura, essa limitação está diretamente relacionada à expansão do evangelho entre os povos da terra.

Antes da vinda de Cristo, as nações viviam em trevas. A revelação de Deus havia sido dada principalmente a Israel. O evangelho ainda não havia rompido as fronteiras do povo antigo. Mas o próprio Jesus disse: “Quando o forte está armado e guarda o seu palácio, os seus bens estão em paz. Mas quando alguém mais forte do que ele o ataca e vence, tira-lhe as armas em que confiava” (Lc 11:21–22). O homem forte foi atado. Por isso, o evangelho avança entre todas as nações.

Isso não é otimismo ingênuo. É a explicação teológica para o que vemos desde o Pentecostes: o evangelho chegando a tribos, línguas e povos que, por milênios, estiveram fechados ao conhecimento de Deus. Satanás não pode impedir isso. Foi acorrentado exatamente nesse aspecto.

Os santos reinam com Cristo

João vê então algo mais: tronos, e autoridade para julgar dada a quem neles se assenta. Vê “as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e os que não adoraram a besta” (Ap 20:4) — aqueles que pareciam derrotados pela besta, especialmente os mártires, agora vivos e reinando com Cristo.

Essa é a imagem central: quem parecia ter perdido tudo, na verdade, já governa com o Rei. O martírio, aos olhos do Império, era derrota total. Aos olhos do céu, era entrada em reinado.

Entendemos que essa visão se estende, num sentido mais amplo, a todos os que morreram na fé. É a realidade de todo crente que, entre a morte e a ressurreição final, já participa do reinado de Cristo no céu — e não aguarda num limbo. Mas o texto começa pelos mártires porque é a eles, especificamente, que o Apocalipse foi escrito para consolar.

Isso traz consequências pastorais diretas para as igrejas do primeiro século — e para nós. Os que morreram por Cristo não perderam. Não foram engolidos pela máquina do Império. São participantes do governo do universo. O martirológio não é uma lista de derrotados. É um registro de vencedores.

Quanto à “primeira ressurreição” mencionada nos versículos 5 e 6, intérpretes dessa tradição a entendem de maneiras ligeiramente distintas. Muitos a identificam com a regeneração — o novo nascimento que une o crente a Cristo, por meio do qual ele já passou da morte para a vida (Jo 5:24). Outros a entendem como a entrada do crente na presença de Cristo após a morte, quando a alma glorificada começa a reinar com ele. Nos dois casos, a afirmação central é a mesma: quem pertence a Cristo já participa de sua vitória. E a segunda morte — o juízo final — não tem poder sobre ele.²

Apocalipse 20 e os mil anos

Voltemos, então, à pergunta que talvez você já estivesse esperando: o que significam os “mil anos” de Apocalipse 20?

Nesta leitura, os mil anos não funcionam como uma contagem cronológica literal, mas como um período completo determinado soberanamente por Deus.³ O próprio Apocalipse emprega números de maneira intensamente simbólica, e o número mil comunica aqui amplitude e completude.

Entendidos assim, os mil anos correspondem à presente era da igreja — o período inteiro entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, do qual já vivemos uma parte considerável. Não é um número a decifrar. É uma forma de dizer: o tempo que Deus determinou para o avanço do evangelho e o reinado dos santos com Cristo é exatamente o tempo que ele quis dar — nem mais, nem menos.

Se Cristo reina, por que ainda sofremos?

Esta é, talvez, a objeção mais honesta que podemos fazer nesta sessão. Se Cristo já reina, por que há tanta violência, injustiça e perseguição? Por que a igreja sofre? Por que o mal parece tão forte?

Lembre-se do já e ainda não: o Rei já reina, mas o mundo ainda não foi plenamente conformado a esse reinado. É nesse intervalo que vivemos — e é nesse intervalo que a igreja sofre.

A resposta do Apocalipse não é negar o sofrimento — é mostrar o seu lugar na história. O livro não foi escrito para igrejas prósperas numa cultura amigável. Foi escrito para comunidades que viviam sob a pressão política, social e religiosa do mundo romano, enfrentando hostilidade, marginalização e, em alguns casos, martírio. E o Apocalipse disse a essas igrejas: Cristo reina sobre esse Império.

O reinado de Cristo não elimina o sofrimento no presente — ele dá sentido ao sofrimento. A dor do povo de Deus não é evidência de que Cristo tenha perdido o controle. É o caminho pelo qual o povo de Deus participa do testemunho do Cordeiro que foi morto e viveu. Como João afirma no capítulo 12: “Eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas a ponto de recuar diante da morte” (Ap 12:11).

O reinado presente de Cristo não nos livra dos adversários. Nos livra do desespero.

Vivendo sob o Reino que Já Começou

Há uma diferença profunda entre esperar que Cristo assuma o trono e viver sabendo que ele já está nele. A primeira postura leva a uma certa passividade — aguardar o momento em que Deus finalmente irá agir. A segunda leva à fidelidade ativa — servir a um Rei que já governa, e cujos propósitos não podem ser frustrados.

O que muda, concretamente, quando vivemos à luz dessa realidade?

Vivemos com fidelidade sem medo. Os poderes do mundo, por mais ameaçadores que pareçam, não têm a palavra final sobre nossa vida. Servimos a um Rei mais forte do que eles.

Vivemos em missão. As nações pertencem a Cristo — o evangelho avança porque o homem forte já foi atado. Anunciar o evangelho não é uma missão destinada ao fracasso. O Cordeiro comprou para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação.

Vivemos com perseverança. O sofrimento não significa que perdemos. Os mártires que João viu reinando com Cristo nos lembram que a cruz sempre precede a coroa — nunca o contrário.

Vivemos com esperança. O reino presente caminha para sua consumação. O que já começou na ressurreição de Cristo será completado quando ele voltar, e a morte, o último inimigo, será finalmente destruída.

A grande pergunta do Apocalipse não é apenas quando Cristo reinará. É se viveremos hoje como pessoas que sabem que ele já reina.

Notas

  • 1 – Sobre a ascensão como entronização e o reinado presente de Cristo, ver Kim Riddlebarger, A Case for Amillennialism (Grand Rapids: Baker, 2003), pp. 63–80; Dennis Johnson, Triumph of the Lamb (Phillipsburg: P&R, 2001), pp. 57–62.
  • 2 – Sobre as interpretações da “primeira ressurreição”, ver William Hendriksen, More Than Conquerors (Grand Rapids: Baker, 1940), pp. 188–192; G.K. Beale & David Campbell, Revelation: A Shorter Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2015), pp. 418–424.
  • 3 – Sobre a interpretação dos mil anos como representação simbólica da era da igreja, ver Hendriksen, More Than Conquerors, pp. 183–193; Johnson, Triumph of the Lamb, pp. 282–291; Riddlebarger, A Case for Amillennialism, pp. 103–120.

Bibliografia

  • Beale, G.K. e David Campbell. Revelation: A Shorter Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 2015.
  • Hendriksen, William. More Than Conquerors. Grand Rapids: Baker, 1940.
  • Johnson, Dennis E. Triumph of the Lamb: A Commentary on Revelation. Phillipsburg: P&R Publishing, 2001.
  • Riddlebarger, Kim. A Case for Amillennialism. Grand Rapids: Baker, 2003.
  • Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

Lições deste módulo

    Doutrina que forma discípulos.
    Não doutrina que agrada plateias.

    Cristianismo Integral Soli Deo Gloria