A Palavra Que Ele Nos DeuFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
Deus falou, e quis que sua Palavra fosse registrada por escrito. Mas duas perguntas ainda pedem resposta: podemos confiar totalmente nessa Palavra, ou ela contém falhas como qualquer outro texto humano? E, se é realmente Palavra de Deus, precisamos de mais alguma coisa além dela?
A Verdade Que Confessamos
Se a Escritura é soprada por Deus, ela carrega o caráter daquele que a originou. Deus não erra, não engana e não se contradiz — e, por isso, sua Palavra, em tudo o que afirma, também não erra. Isso não significa que cada tradução seja perfeita ou que cada leitor a interprete sem falhas; significa que a Escritura, tal como originalmente dada, é inteiramente verdadeira e confiável em tudo o que afirma.
Essa mesma Palavra também é suficiente. Ela contém tudo o que Deus julgou necessário revelar para que o conheçamos, recebamos sua salvação e vivamos de maneira agradável a Ele. Isso não quer dizer que a Bíblia responda a toda pergunta que já nos fizemos — sobre ciência, sobre história, sobre a vida cotidiana —, mas que, para o propósito para o qual foi dada, ela não deixa lacuna alguma. Nenhuma tradição, experiência ou autoridade humana pode ser colocada ao lado da Escritura como uma segunda regra necessária de fé e vida.
Inerrância e suficiência são, na verdade, duas faces da mesma confiança. Porque a Escritura não erra, podemos apoiar nela todo o peso da nossa fé. Porque a Escritura basta, não precisamos buscar em outro lugar aquilo que Deus já nos deu.
Fundamento Bíblico
Jesus não diz apenas que a Palavra de Deus contém coisas verdadeiras: “a tua palavra é a verdade” (João 17.17, NAA). O salmista já havia chegado à mesma conclusão: “A essência da tua palavra é a verdade, e cada uma das tuas justas ordenanças dura para sempre” (Salmos 119.160, NAA). E Paulo lembra a Tito que essa confiança repousa, em última instância, no caráter do próprio Deus, que “não pode mentir” (Tito 1.2, NAA). Se Deus é verdadeiro e não pode mentir, aquilo que Ele dá como sua Palavra não pode ensinar como verdadeiro aquilo que é falso.
Quanto à suficiência, Paulo declara que a Escritura é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3.16-17, NAA). Se ela prepara o homem de Deus perfeitamente e para toda boa obra, não falta a ela nada de essencial. O próprio salmista já cantava essa mesma suficiência: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma […] os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração” (Salmos 19.7-8, NAA) — o mesmo salmo que, em sua primeira metade, mostrava os céus proclamando a glória de Deus agora mostra sua Palavra escrita instruindo e restaurando. E o próprio Antigo Testamento já advertia contra a tentação de tratar a Palavra de Deus como matéria-prima a ser ampliada: “Não acrescentes coisa alguma às suas palavras, para que ele não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Provérbios 30.6, NAA).
Diante disso
Se admitimos que a Escritura pode ensinar como verdadeiro aquilo que é falso, surge inevitavelmente a pergunta: quem decidirá onde ela pode ser confiável? O risco é deslocar a autoridade final da Palavra para o julgamento do próprio leitor. Negar a suficiência abre o mesmo tipo de espaço em outra direção — permitindo que tradições humanas, experiências pessoais ou outras autoridades reivindiquem um peso que só a Palavra de Deus tem direito de carregar.
Mas há também aqui um risco de excesso: exigir da Escritura um tipo de precisão que seus próprios autores nunca pretenderam oferecer, ou usar a suficiência como desculpa para dispensar o estudo cuidadoso, como se bastasse abrir a Bíblia sem esforço para compreendê-la corretamente. A Escritura é suficiente para o que Deus quis que ela fizesse — não para tudo o que a curiosidade humana gostaria de perguntar.
Diante de uma Palavra que não erra, a resposta certa é a confiança: podemos apoiar nela nossa fé, nossa doutrina e nossa vida, sem reserva. Diante de uma Palavra que basta, a resposta certa é o contentamento: não precisamos de mais nada além do que Deus já nos deu para conhecê-lo e para viver diante dEle. Mas confiar que a Escritura não erra e que é suficiente ainda nos deixa diante de uma responsabilidade: precisamos aprender a lê-la como ela pede para ser lida. É essa a pergunta da próxima lição.