O Povo Que Ele Criou e AmaFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
Até aqui, a série estabeleceu o que o pecado é e o que ele produz. Falta responder a uma pergunta que a experiência humana levanta constantemente: existe alguma exceção? Algum indivíduo, alguma nação, alguma fase da vida que escape dessa condição? A Escritura responde com uma clareza que não admite meio-termo: entre os descendentes naturais de Adão, não há exceção alguma. Todos pecaram.
A Verdade Que Confessamos
Confessamos que a condição descrita nas lições anteriores não é hipotética nem parcial. Ela alcança absolutamente todo ser humano nascido de Adão, sem distinção de origem, moralidade aparente ou religiosidade. Judeus e gentios, virtuosos e criminosos, religiosos e ateus: todos se encontram, por natureza, debaixo do pecado. Não existe um único descendente natural de Adão que tenha escapado dessa condição por mérito próprio. Somente Cristo, concebido pelo Espírito Santo, nasceu sem a corrupção do pecado e viveu em perfeita obediência — e é exatamente por isso que Ele pode ser nosso Redentor.
Essa universalidade não começa na fase adulta, quando os primeiros atos pecaminosos concretos são cometidos. Somos concebidos em uma condição caída e nascemos com uma natureza corrompida, antes mesmo de praticarmos qualquer ato consciente de pecado. Essa é a condição da depravação total: não que todo ser humano seja tão perverso quanto poderia ser, mas que o pecado alcançou todas as dimensões de nossa natureza — mente, vontade e afetos. Nenhuma delas permanece intacta ou capaz de nos conduzir, por si mesma, de volta a Deus.
Dessa depravação total decorre uma pergunta distinta, ainda que relacionada: se o pecado alcançou toda a pessoa, o que o homem caído consegue fazer para sua própria salvação? A resposta é a incapacidade moral: por suas próprias forças, o homem não pode voltar-se para Deus de maneira salvadora. Essa incapacidade não é física, nem intelectual no sentido de falta de informação — é moral e espiritual. O homem não busca a Deus porque, em sua natureza caída, não quer buscá-lo, ainda que continue plenamente responsável por essa recusa.
Fundamento Bíblico
Paulo, em Romanos 3.10-18, reúne uma sequência de textos do Antigo Testamento para estabelecer essa universalidade de forma sistemática: “Não há justo, nem um sequer… Não há quem busque a Deus… Não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” A conclusão do apóstolo, alguns versículos depois, fecha qualquer possibilidade de justiça própria: “toda a boca se feche e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Romanos 3.19).
Davi reconhece que sua condição pecaminosa não começou nos atos que agora confessa, mas alcança sua existência desde o princípio: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51.5). Lido à luz de Romanos 5, o texto confirma que nossa corrupção não é simplesmente adquirida pelo hábito, mas pertence à condição caída na qual nascemos. É a mesma verdade que a doutrina da imputação, estabelecida na Lição 2, já preparava.
A incapacidade espiritual do homem caído é igualmente explícita. Paulo declara que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, porque não está sujeita à lei de Deus, nem em verdade pode estar” (Romanos 8.7). Jesus afirma o mesmo princípio de outra forma: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (João 6.44). A vinda a Cristo não é apenas difícil para o homem natural — é impossível sem a ação eficaz do Pai. Paulo descreve essa condição com uma imagem ainda mais forte em Efésios 2.1: os que estão fora de Cristo não estão doentes ou fracos espiritualmente, mas “mortos em ofensas e pecados”. E os mortos não se levantam por esforço próprio.
Diante disso
Essa doutrina elimina qualquer base para orgulho espiritual comparativo. O fariseu e o publicano podem manifestar o pecado de maneiras muito diferentes, mas nenhum deles possui em si mesmo qualquer fundamento para se apresentar justo diante de Deus. Ambos dependem inteiramente da misericórdia divina. Isso corta pela raiz tanto o desprezo religioso por quem parece “pior” quanto a autoconfiança de quem se considera “melhor”.
Se o homem está espiritualmente morto e moralmente incapaz de voltar-se para Deus, a iniciativa da salvação não pode começar nele. Ela pertence inteiramente a Deus. Ele faz por nós aquilo que não podemos fazer por nós mesmos: chama os mortos e os traz à vida. A graça não encontra mortos dando os primeiros passos em direção à vida; ela os vivifica.