O Povo Que Ele Criou e AmaFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
A primeira coisa que a Bíblia diz sobre o ser humano não é uma acusação. É uma origem. Antes de qualquer palavra sobre pecado, Gênesis 1.27 declara: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Essa é a base sobre a qual tudo o mais nesta série será construído — e ela não pode ser negociada nem adiada.
A Verdade Que Confessamos
Confessamos que todo ser humano, sem exceção, foi criado à imagem de Deus. Ser imagem de Deus significa que o homem foi feito para representar Deus na criação e para refletir, como criatura finita, algo do caráter de seu Criador. Essa representação se expressa de várias formas: na racionalidade, quando o homem pensa e compreende, e na moralidade, quando distingue o certo do errado e responde por seus atos. Aparece também na relacionalidade, quando ama e vive em comunhão, e no domínio, quando exerce mordomia sobre a criação. Mas nenhuma dessas expressões esgota o que a imagem é. Uma pessoa com limitações cognitivas profundas não carrega menos imagem de Deus do que qualquer outra. A imagem não depende da capacidade de exercê-la plenamente, mas do fato de ter sido dada por Deus no ato da criação.
Essa imagem não é privilégio de um sexo em detrimento do outro. Gênesis 1.27 não afirma apenas que “o homem” foi criado à imagem de Deus; acrescenta imediatamente: “homem e mulher os criou.” A imagem de Deus não pertence mais plenamente ao homem do que à mulher. Ambos recebem a mesma dignidade humana e, juntos, recebem a vocação de representar seu Criador no mundo. Não há hierarquia de dignidade entre homem e mulher, nem entre raças ou condições sociais. Fomos feitos por Deus, à imagem de Deus e para Deus — e essa tríplice realidade é o fundamento de toda dignidade e de toda responsabilidade humana.
Fundamento Bíblico
Gênesis 1.26 registra Deus dizendo: “Façamos o homem à nossa imagem.” À luz da revelação completa das Escrituras, sabemos que esse Deus Criador é Pai, Filho e Espírito Santo — verdade já estabelecida no módulo anterior desta série. Gênesis 1.26-28 deixa explícito, porém, a ligação entre imagem e domínio. O homem é colocado na criação como representante de Deus, chamado a governá-la sob o governo de Deus, a “sujeitá-la” e “dominá-la” em nome de quem a fez. Essa vocação prepara temas que a Escritura desenvolve mais adiante — trabalho, mordomia, responsabilidade diante de Deus por aquilo que Ele confiou ao homem.
Gênesis 9.6 e Tiago 3.9 confirmam que essa imagem sobrevive à queda. Ambos os textos foram escritos depois da entrada do pecado no mundo, e ambos continuam a tratar o ser humano caído como portador da imagem de Deus. Gênesis 9.6 fundamenta nela a gravidade do homicídio; Tiago 3.9 a usa como base ética para proibir que a mesma boca abençoe a Deus e amaldiçoe o homem.
Cristo não é simplesmente mais um portador da imagem, como todo ser humano. Colossenses 1.15 e 2 Coríntios 4.4 o chamam de “imagem do Deus invisível” — a perfeita revelação do Pai. E é à imagem desse Filho que Deus está conformando aqueles que redime, conforme Romanos 8.29 descreve o propósito de Deus de moldar os crentes “à imagem de seu Filho”.
Diante disso
A lição desenha um arco que não pode ser interrompido em nenhum de seus pontos: criados à imagem, imagem desfigurada pela queda, imagem não destruída, imagem restaurada em Cristo. A queda desfigura a imagem de Deus no homem, mas não a apaga. O espelho está rachado, distorcido pelo pecado em cada faculdade, mas continua sendo espelho. Essa distinção protege contra dois erros: negar qualquer dignidade ao ser humano caído, tratando-o como mera depravação sem valor algum; e minimizar os efeitos do pecado, como se a imagem tivesse permanecido intacta.
Isso muda como tratamos cada pessoa que encontramos. Nenhum desprezo por origem, capacidade ou condição é compatível com essa confissão, porque atacar a dignidade humana é afrontar o próprio Deus que a concedeu. Mas a imagem de Deus não é apenas fundamento de dignidade — é também fundamento de responsabilidade. Fomos feitos para representar nosso Criador, viver sob seu governo e exercer fielmente a vocação que recebemos sobre a criação. Nossa dignidade vem daquele que nos criou; nossa vocação, daquele cuja imagem carregamos; e nossa esperança, de Cristo, à cuja imagem estamos sendo conformados.