O Filho Que Ele EnviouFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
A lição anterior estabeleceu que o Filho é eterno, sem princípio, plenamente Deus antes de qualquer coisa criada existir. Mas há um mistério que essa mesma eternidade só aprofunda: como aquele que é eternamente Deus também pode ser verdadeiramente homem?
A Verdade Que Confessamos
Jesus Cristo é uma só pessoa com duas naturezas completas — verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem — unidas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. Ele não é meio Deus e meio homem, como se cada natureza fosse parcial. Não é Deus disfarçado de homem, como se a humanidade fosse apenas uma aparência. Não é um homem elevado à condição divina.
Ele possui tudo o que pertence à verdadeira natureza humana — corpo, mente, vontade, emoções — exceto o pecado. Ao mesmo tempo, possui, sem redução alguma, tudo o que pertence à natureza divina. Essa união começou na encarnação e nunca terminará: o Filho que hoje está à direita do Pai continua sendo tão verdadeiramente homem quanto verdadeiramente Deus.
Fundamento Bíblico
João já havia estabelecido a eternidade do Verbo. Agora ele registra o momento em que tudo muda: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). O mesmo Verbo que era Deus tornou-se carne — sem deixar de ser aquilo que eternamente era, assumiu aquilo que antes não possuía: uma verdadeira natureza humana.
Paulo descreve esse movimento com precisão: Cristo, “subsistindo em forma de Deus… esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fp 2.6-7). Esse esvaziamento não consistiu em deixar de possuir aquilo que pertence à natureza divina, mas em assumir a condição de servo e entrar verdadeiramente em nossa condição humana.
A carta aos Colossenses resume essa mesma ideia numa única frase densa: “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). É a plenitude da divindade presente corporalmente naquele que assumiu uma natureza humana completa. Ao mesmo tempo, as Escrituras não hesitam em atribuir a Jesus experiências genuinamente humanas: ele tem fome (Mt 4.2), cansa-se de uma viagem (Jo 4.6) e chora diante do túmulo de um amigo (Jo 11.35).
Na cruz, ele entrega seu espírito e morre como qualquer homem morre (Jo 19.30). O autor de Hebreus explica por que isso era necessário: “porquanto os filhos são participantes de carne e sangue, ele também participou dessas mesmas coisas… Portanto, era necessário que ele se tornasse em tudo semelhante aos irmãos” (Hb 2.14,17). E por isso “não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim um que, como nós, foi tentado em tudo, mas sem pecado” (Hb 4.15).
Os Evangelhos não nos apresentam dois Cristos. O mesmo Jesus que dorme exausto numa barca (Mc 4.38) acalma o vento e o mar com uma palavra (Mc 4.39). O mesmo que chora diante de Lázaro morto o chama de volta à vida com sua própria autoridade (Jo 11.43). Aquele que manifesta verdadeira fraqueza humana é a mesma pessoa que exerce autoridade divina.
Foi para nomear com precisão essa realidade que a igreja passou a falar em união hipostática — de hypóstasis, pessoa: a união permanente das naturezas divina e humana na única pessoa do Filho. Essa verdade recebeu uma formulação especialmente cuidadosa no Concílio de Calcedônia, em 451: Cristo deve ser reconhecido em duas naturezas, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”. Não é uma inovação doutrinária, mas sim uma forma de guardar fielmente o que estes textos já ensinavam.
Diante disso
Nossa salvação depende de quem Cristo é. Aquele que nos representa é verdadeiramente um de nós: compartilhou de carne e sangue, entrou em nossa condição e viveu como homem. Mas aquele que assumiu nossa humanidade é o próprio Filho eterno de Deus. Não são dois salvadores nem duas pessoas cooperando numa mesma obra, mas um só Cristo — Deus verdadeiro e homem verdadeiro — realizando nossa redenção.
O Filho não vestiu nossa humanidade por algum tempo para depois abandoná-la. Ele a assumiu para sempre. O Cristo que hoje reina à direita do Pai é o mesmo que caminhou entre nós, dormiu exausto e chorou diante de um túmulo. Por isso, aquele que possui todo o poder divino não está distante de nossa condição: ele a conhece verdadeiramente, porque realmente se fez um de nós. Nele encontramos um Salvador plenamente capaz de nos salvar e verdadeiramente próximo daqueles que salva.