O Filho Que Ele EnviouFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
As três lições anteriores estabeleceram quem o Filho é, como suas duas naturezas se unem e como essa união teve início no ventre de Maria. Resta uma pergunta que atravessa toda a vida terrena de Jesus, do primeiro ao último dia: tendo assumido verdadeira humanidade, ele cedeu, ainda que uma única vez, à tentação?
A Verdade Que Confessamos
Jesus Cristo viveu toda a sua vida terrena em perfeita obediência a Deus, sem jamais cometer um único pecado, em pensamento, palavra ou ação. Ele enfrentou tentações reais e verdadeiramente humanas — fome, sofrimento, pressão e a oferta de caminhos contrários à vontade do Pai — e jamais cedeu. Mas sua santidade não se limitou a evitar o mal. Cristo não apenas evitou tudo aquilo que Deus proíbe; cumpriu perfeitamente tudo aquilo que Deus requer. Essa vida sem pecado e essa obediência perfeita não foram um acréscimo à sua missão, nem um detalhe moral favorável ao seu caráter. Foram condição necessária para que pudesse ocupar o lugar de outros diante de Deus.
Fundamento Bíblico
O autor de Hebreus já havia preparado o terreno para essa afirmação: Jesus foi “tentado em tudo, segundo a nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). Suas tentações foram reais e ele permaneceu obediente a elas até o fim. Hebreus chega a dizer que, “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8). Isso não significa que tivesse sido anteriormente desobediente; significa que viveu concretamente, em nossa condição humana, uma obediência que atravessou sofrimento real. Mais adiante, o mesmo autor descreve o tipo de sumo sacerdote de que a humanidade precisava: “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7.26). Os evangelhos registram o episódio que expõe com mais clareza essa realidade. No deserto, tentado por Satanás durante quarenta dias de jejum, exatamente no ponto de maior fraqueza física, Jesus responde a cada investida citando a Escritura e recusando o atalho oferecido (Mt 4.1-11). Onde Adão, cercado pela abundância de um jardim perfeito, cedeu à tentação, o último Adão, faminto e no deserto, permaneceu obediente. É a mesma tipologia que o próprio Paulo estabelece ao chamar Cristo de último Adão (1Co 15.45).
João registra um desafio que Jesus lançou publicamente aos seus adversários mais hostis: “Quem dentre vós me convence de pecado?” (Jo 8.46). Pedro, que acompanhou Jesus durante seu ministério, escreve depois: “Ele não cometeu pecado, e na sua boca não se achou engano” (1Pe 2.22). É uma citação direta da profecia do Servo Sofredor em Isaías 53.9. João, o apóstolo, resume com igual peso: “nele não há pecado” (1Jo 3.5).
Mas a santidade de Cristo não consistiu apenas na ausência de transgressão. Ele declarou acerca do Pai: “Eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29). Onde nós deixamos de fazer aquilo que Deus requer, Cristo obedeceu perfeitamente. Paulo coloca essa obediência no coração de sua obra ao contrastá-la com a de Adão. “Pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão feitos justos” (Rm 5.19). E essa obediência prosseguiu até o fim: ele “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Paulo aponta para a implicação mais decisiva de tudo isso: Deus “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). A frase só faz sentido se Cristo verdadeiramente não conheceu pecado algum; caso contrário, ele estaria pagando também por sua própria culpa, e não haveria substituição real em nosso favor.
Diante disso
Se Cristo tivesse pecado ou desobedecido, ainda que uma única vez, ele teria deixado de ser o sacrifício “sem mancha e sem defeito” que a lei exigia (1Pe 1.19). Precisaria, ele mesmo, de um salvador. Toda a obra de representação e substituição que as próximas lições vão desenvolver depende desse fato simples e absoluto: aquele que morreu em nosso lugar não tinha culpa própria pela qual responder. Ele se entregou como o justo em favor dos injustos (1Pe 3.18). Sua vida sem pecado manifesta sua perfeita santidade e é indispensável à obra que veio realizar em favor dos pecadores.
Há também um consolo real nisso para quem enfrenta a própria fraqueza diante da tentação. Ele não observou nossas lutas de longe. Conheceu verdadeiramente fome, cansaço, sofrimento e tentação, e permaneceu fiel em meio a tudo isso. Não apenas resistiu ao mal; obedeceu ativamente ao Pai até o fim, mesmo quando obedecer se tornou doloroso. Diante de um Salvador assim, íntegro e obediente do começo ao fim de sua vida terrena, a resposta que resta é confiança: ele é digno de nossa fé porque nunca falhou em nada.