O Filho Que Ele EnviouFundamentos da Fé Que Nos Foi Entregue
Nesta lição
Antes de qualquer manjedoura, antes de qualquer estrela que apontava o caminho, o Filho já existia. Não como uma ideia na mente de Deus. Mas como o Filho eterno, plenamente Deus e em perfeita comunhão com o Pai.
A Verdade Que Confessamos
O Filho não começou a existir em Belém. Ele é eterno, sem princípio, e vive em perfeita comunhão com o Pai, partilhando com ele a única natureza divina e a mesma glória. O Natal não marca o início da existência do Filho — marca o momento em que aquele que já era eterno assumiu também a natureza humana. Confessar isso é confessar que Jesus Cristo é plenamente Deus, e que o é desde sempre, sem hierarquia de tempo ou de essência que o subordine ao Pai.
Fundamento Bíblico
João abre seu evangelho recusando qualquer ponto de partida temporal para o Filho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). Quando João nos leva ao princípio de todas as coisas, o Verbo já é. Ele não vem a existir; ele é. E enquanto todas as coisas “vieram a existir” por meio dele, ele não é incluído entre elas: estava com Deus e era Deus. O próprio Jesus confirma isso em oração, pedindo ao Pai “a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.5). Não é uma glória prometida ou antecipada; é uma glória que ele já possuía, em comunhão pessoal com o Pai, antes de qualquer coisa criada existir.
Diante dos líderes religiosos de seu tempo, Jesus declara: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58). A construção contrasta deliberadamente o verbo no passado usado para Abraão com o presente absoluto usado para si mesmo, ecoando a linguagem da autoidentificação divina de Êxodo 3.14. A reação de seus ouvintes — pegar pedras para apedrejá-lo — mostra que receberam sua afirmação como uma reivindicação extraordinária.
Paulo é ainda mais direto: o Filho é “a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15). “Primogênito” aqui não significa primeiro a ser criado. O próprio Paulo exclui essa leitura ao afirmar, em seguida, que “nele foram criadas todas as coisas… todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele” (Cl 1.16). O Filho não pertence ao conjunto das coisas criadas; ele é aquele por meio de quem elas vieram a existir. É por isso que a igreja antiga, ao formular sua confissão contra os que negavam a divindade plena de Cristo, descreveu o Filho como “gerado, não criado, da mesma essência do Pai”. “Gerado” não significa que o Filho tenha começado a existir, mas sim que expressa sua relação eterna com o Pai. “Não criado” deixa claro que ele jamais pertenceu à ordem das coisas feitas. Essa distinção não inventa doutrina nova; apenas nomeia com precisão o que estes textos já ensinavam.
O autor de Hebreus fecha o argumento: o Filho é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser”, sustentando “todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hb 1.3). Aquele que sustenta todas as coisas por sua própria palavra não pertence à ordem das coisas que sustenta.
Diante disso
Se o Filho não é eterno, então ele não é Deus. E se não é Deus, não é o Cristo que as Escrituras confessam — apenas uma criatura excepcional, por mais elevada que seja sua missão. É por isso que negar a eternidade do Filho nunca foi um detalhe periférico na história da igreja; sempre atingiu a própria identidade de Cristo.
Reconhecer o Filho Eterno muda a forma como nos aproximamos dele. Não nos curvamos diante de um mero enviado ou de uma criatura elevada, mas diante daquele que já reinava antes de qualquer coisa existir. Aquele que entrou no tempo é o mesmo por meio de quem o próprio tempo e toda a criação vieram a existir. A adoração devida a Deus é também devida ao Filho. Pai e Filho são eternamente distintos como pessoas, mas não estão separados quanto à essência divina: o Filho é, desde sempre, verdadeiro Deus.